John Locke e a Banheira do Gugu

Equipe BigCase

29/06/2016
10:56

Como começar a entender a mente da geração dos anos 90

John Locke e a Banheira do Gugu

Apenas dezesseis anos nos separam do fim dos anos 90 e talvez nenhuma outra década nos pareça tão distante da exatidão real do tempo.

Pagers e videolocadoras frente a whatsapp e Netflix. A métrica comum do tempo não é capaz de mensurar o crescimento exponencial da tecnologia em tão curto período. Das fitas cassetes cujas etiquetas eram preenchidas à caneta, chegamos à criação de listas no Spotify. Avanços em proporções nunca antes vistas, num mínimo espaço de tempo que atingiram toda a maneira de se ver, sentir e, principalmente, se comunicar com o mundo, sobretudo para a geração que crescia em meio a tal avanço tecnológico que começava a se despontar, e assim, dividida entre o analógico e o digital, cresceu imersa à volubilidade dos anos 90.

Com o plano Real, o cenário econômico mudava as expectativas, a estabilidade das taxas de inflação não só contribuía com o poder aquisitivo, como permitia novas formas de se viver o cotidiano. A comunicação, claro, levava em conta todos os fatores, e para obter sucesso sabia que era preciso corresponder aos anseios e costumes de seu público. E num período em que a internet ainda era uma promessa, a TV era um agente de entretenimento e informação de singular potencial de influência.

ImagemCorpoDeTexto2Programações matutinas destinadas exclusivamente ao público infantil, inclusive aos sábados, programas de culinária no período vespertino que eram seguidos de novelas, filmes e, logo após, um pouco mais de programação destinada ao público infanto-juvenil antes que se desse início às diferentes faixas de novela e noticiários. Toda programação sendo seguida de perto pelas crianças que já não passavam todo o tempo brincando na rua, como suas gerações anteriores, e por isso grande parte de sua infância tinha a TV como um importante personagem. Era por isso que sonhavam em participar do programa da Xuxa, por isso que todos tinham seu Power Ranger preferido, tentavam fazer as artes que a Eliana ensinava em seu programa (sempre tesoura sem ponta!), por isso que às tardes tentavam realizar as experiências que viam em o Mundo de Beackman, cantavam e sonhavam em ser astros de boy ou girlbands, sabiam de cor as letras de Sandy e Júnior, Mamonas Assassinas, e assistiam aos domingos à banheira do Gugu e torciam ou para o time das mulheres ou para o time dos homens.

A banheira do Gugu!

Como era? Sejamos sensatos na transcrição: havia duas equipes: mulheres contra homens, todos celebridades, ou sub-celebridades (caso a necessidade de criar novos termos fosse já uma demanda dos anos 90), todos com trajes de banho (homens de sunga e mulheres, biquíni) e em duplas entravam em uma banheira colocada no palco onde competiam dentro do tempo que lhes era dado quem conseguia pegar o maior número de sabonetes que ficavam no fundo da banheira! Regras simples, muitos corpos à mostra e uma música de ritmo e letra chiclete que acompanhava a atração!

E assim, a geração dos anos 90 crescia e tinha suas experiências baseadas na observação de seu mundo. A banheiro do Gugu não lhe era oportunismo barato para se mostrar gente pelada. Na verdade era! Mas mostrava de um jeito divertido e isso bastava, assim como as músicas dos Mamonas Assassinas, que nada diziam senão um tremendo besteirol sem sentido, mas que era entoado em ritmo bacana, despretensioso e engraçado. Era o suficiente.

Tudo era leve e encarado como uma experiência válida que compunha o repertório do que se vivia. As folhas em branco da geração que começava a vislumbrar ao longe a tecnologia que foi se mostrando cada vez mais assídua e imponente. Suas experiências iam dos corretíssimos e didáticos ursinhos carinhosos aos versos dos Mamonas Assassinas que davam conselhos a respeito do uso do sabão.

As experiências de uma pessoa ao longo de sua formação é que definirão seu conhecimento e personalidade, afirmava o filósofo John Locke, e talvez nenhuma outra afirmação do empirismo filosófico se encaixe tão bem quando nos propomos a entender a geração dos anos 90, seus problemas e suas virtudes.

A geração que cresceu exposta a uma diversidade imensa de valores e crenças, à mercê de um flash de informações e tecnologia que, num solavanco, a empurrou ao esperançoso cenário do futuro precoce, cheio de novos elementos com os quais ainda não tiveram tempo de se adaptar e compreender suas reais utilidades ou mesmo suas bases.

As regras da banheira do Gugu eram mais simples, as variáveis dos anos 90 apenas lhes eram apresentadas. O contexto atual é bem mais complexo, e uma vez que o fim dos anos 90 nos trouxe de fato ao início da era do digital, a mais alta velocidade de conexão ainda levará certo tempo para completar o download do preenchimento da tabula desta década ainda mais instável que os anos 90.

 

Este artigo foi escrito por:

Victor Bertão
24 Anos. Humano. Publicitário

 

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